# Quase tudo que você precisa saber para estudar filosofia

https://www.youtube.com/watch?v=wVhMm72gYVo
Translation: pt-BR

[00:00] Olá, internet, como vocês estão?
  Olá, internet, como vocês estão?

[00:04] Bom, sempre me perguntam como e por onde começar a estudar filosofia e de tanto receber mensagens do tipo e de ter visto um dos piores vídeos da minha vida.
  Bem, sempre me perguntam como e por onde começar a estudar filosofia e de tanto receber mensagens do tipo e de ter visto um dos piores vídeos da minha vida.

[00:13] Quem me acompanha nas redes sociais sabe do que eu tô falando.
  Quem me acompanha nas redes sociais sabe do que estou falando.

[00:15] Decidi que era hora de fazer um vídeo de introdução ao estudo de filosofia.
  Decidi que era hora de fazer um vídeo de introdução ao estudo de filosofia.

[00:18] Mas antes, alguns avisos.
  Mas antes, alguns avisos.

[00:21] Esse vídeo não vai te ajudar a escrever uma dissertação, a fazer seu trabalho de escola, muito menos te dar conselhos pra vida.
  Este vídeo não vai te ajudar a escrever uma dissertação, a fazer seu trabalho de escola, muito menos te dar conselhos para a vida.

[00:27] Ele não vai te dizer qual o ponto da filosofia, muito menos se você deve ou não cursar a filosofia.
  Ele não vai te dizer qual o sentido da filosofia, muito menos se você deve ou não cursar filosofia.

[00:32] Nele, você vai encontrar uma breve exposição de princípios e posturas, assim como um método para o estudo de filosofia.
  Nele, você vai encontrar uma breve exposição de princípios e posturas, assim como um método para o estudo de filosofia.

[00:44] Entende-se, por o estudo de filosofia o estudo sério e formal do assunto.
  Entende-se, por estudo de filosofia, o estudo sério e formal do assunto.

[00:46] Ora, isso pressupõe que haja algo como um corpo de conhecimentos, uma área, um campo chamado filosofia.
  Ora, isso pressupõe que haja algo como um corpo de conhecimentos, uma área, um campo chamado filosofia.

[00:54] É discutível até que ponto a filosofia é um objeto e não uma atividade.
  É discutível até que ponto a filosofia é um objeto e não uma atividade.

[00:57] Dizem por aí, não se
  Dizem por aí, não se

[01:03] Aprende filosofia, mas sim a filosofar.
  Aprende filosofia, mas sim a filosofar.

[01:06] Mas assumindo que seja verdade que filosofia seja um campo de estudo, por onde começamos seu estudo?
  Mas assumindo que seja verdade que filosofia seja um campo de estudo, por onde começamos seu estudo?

[01:13] Naturalmente começamos definindo o que é filosofia.
  Naturalmente começamos definindo o que é filosofia.

[01:15] Porém, é preciso adiantar que não há como falar de filosofia sem já filosofar.
  Porém, é preciso adiantar que não há como falar de filosofia sem já filosofar.

[01:20] Tudo que for dito até aqui a respeito de filosofia, não obstante seu método de estudo, corre o risco de ser parcial.
  Tudo que for dito até aqui a respeito de filosofia, não obstante seu método de estudo, corre o risco de ser parcial.

[01:27] Para evitarmos ao máximo correr esse risco, inicialmente, vamos tentar assinalar o que não é filosofia.
  Para evitarmos ao máximo correr esse risco, inicialmente, vamos tentar assinalar o que não é filosofia.

[01:36] Um. Filosofia não é opinião.
  Um. Filosofia não é opinião.

[01:39] Filosofia não é mero pensamento.
  Filosofia não é mero pensamento.

[01:41] Filosofia não é mera reflexão com aparência de profundidade.
  Filosofia não é mera reflexão com aparência de profundidade.

[01:43] Em filosofia não temos a exposição de algo subjetivo, mas sim a criação de um discurso objetivo.
  Em filosofia não temos a exposição de algo subjetivo, mas sim a criação de um discurso objetivo.

[01:48] Tá? Mas se ela não é opinião subjetiva, então ela pode ser um pensamento qualquer.
  Tá? Mas se ela não é opinião subjetiva, então ela pode ser um pensamento qualquer.

[01:56] Cada filósofo fala de qualquer coisa?
  Cada filósofo fala de qualquer coisa?

[01:58] Não, pois a principal característica desse discurso objetivo é ser racional e
  Não, pois a principal característica desse discurso objetivo é ser racional e

[02:03] Universal. A filosofia não é teologia.
  Universal. Philosophy is not theology.

[02:06] Não é verdade revelada, ela é argumentada.
  It is not revealed truth, it is argued.

[02:11] Ou seja, a construção da verdade se dá gradativamente no decorrer da construção argumentativa do texto.
  In other words, the construction of truth happens gradually in the course of the argumentative construction of the text.

[02:16] Tal construção se dá através da lógica, através da argumentação, através do apelo a uma razão que transcende eu e você e que faz apelo ao universal, de modo que não um simples pensamento arbitrário que é expresso, mas algo da ordem da necessidade.
  Such construction happens through logic, through argumentation, through the appeal to a reason that transcends me and you and that appeals to the universal, so that it is not a simple arbitrary thought that is expressed, but something of the order of necessity.

[02:31] O encadeamento de tais pensamentos necessários forma uma estrutura, uma arquitetônica, um sistema.
  The chaining of such necessary thoughts forms a structure, an architectonic, a system.

[02:39] O que é estudado em filosofia é o sistema.
  What is studied in philosophy is the system.

[02:43] Sendo assim, quando Platão fala algo, não é Platão quem fala, mas é a razão quem fala por ele.
  Thus, when Plato says something, it is not Plato who speaks, but reason who speaks through him.

[02:49] Pouco importa quem foi Platão, o que ele acha disso, disse daquilo.
  It matters little who Plato was, what he thinks of this, said of that.

[02:54] O que importa é o sistema que ele construiu, o modo como seus conceitos se concatenam de modo a formar uma estrutura racional estável, com
  What matters is the system he built, the way his concepts link together to form a stable rational structure, with

[03:04] pretensões universais e que perdura no tempo.
  pretensões universais e que perdura no tempo.

[03:09] Dois, filosofia não é útil.
  Segundo, a filosofia não é útil.

[03:12] Filosofia não é um conhecimento positivo, propositivo e edificante.
  A filosofia não é um conhecimento positivo, propositivo e edificante.

[03:16] A filosofia não serve para ganhar sua vida e também não vai servir para construir pontes.
  A filosofia não serve para ganhar a vida e também não servirá para construir pontes.

[03:20] Diferente da matemática que opera por construção em blocos, você começa com conceitos básicos, como números e operações simples, que são como fundamentos, que em cima disso você constrói conhecimentos mais complexos que sempre remetem aos blocos anteriores.
  Diferente da matemática que opera por construção em blocos, você começa com conceitos básicos, como números e operações simples, que são como fundamentos, sobre os quais você constrói conhecimentos mais complexos que sempre remetem aos blocos anteriores.

[03:34] Em filosofia não se opera por doutrinas.
  Em filosofia, não se opera por doutrinas.

[03:36] É claro, sempre dá para essencializar o que um filósofo diz numa série de proposições.
  É claro, sempre é possível essencializar o que um filósofo diz em uma série de proposições.

[03:42] Por exemplo, Kant diz isso, isso e aquilo sobre tal e tal coisa.
  Por exemplo, Kant diz isto, isto e aquilo sobre tal e tal coisa.

[03:46] Decartes isso, isso e aquilo.
  Descartes diz isto, isto e aquilo.

[03:49] E por fim, Rousseau diz tal coisa.
  E, por fim, Rousseau diz tal coisa.

[03:52] Mas saber exatamente o que os filósofos dizem ou disseram é tão insignificante que basta, por exemplo, ler uma página do Wikipedia para isso.
  Mas saber exatamente o que os filósofos dizem ou disseram é tão insignificante que basta, por exemplo, ler uma página da Wikipedia para isso.

[03:59] Conhecimento proposicional da tradição é útil, mas não é tudo.
  O conhecimento proposicional da tradição é útil, mas não é tudo.

[04:01] Se reduzimos a filosofia a
  Se reduzimos a filosofia a

[04:07] Isso, corremos o risco de trivializar a história da filosofia, como se através de uma doutrina filosófica fosse possível julgar e refutar um outro autor.
  This way, we run the risk of trivializing the history of philosophy, as if through a philosophical doctrine it were possible to judge and refute another author.

[04:16] Novamente, isso é insignificante e mais tarde veremos o porquê.
  Again, this is insignificant and later we will see why.

[04:22] Três, filosofia não é ciência, ela não lida com positividades.
  Three, philosophy is not science, it does not deal with positivities.

[04:25] Como assim?
  What do you mean?

[04:28] Nas ciências teorias ficam obsoletas.
  In science, theories become obsolete.

[04:31] Por exemplo, na física havia teoria geocêntrica, na biologia geração espontânea.
  For example, in physics there was the geocentric theory, in biology spontaneous generation.

[04:35] Na medicina a teoria dos humores.
  In medicine, the theory of humors.

[04:38] Estuda-se essas coisas a título histórico, não a título de verdade.
  These things are studied for historical purposes, not as truth.

[04:43] Tanto que ninguém acredita mais nessas coisas.
  So much so that no one believes in these things anymore.

[04:45] Elas ficaram obsoletas.
  They became obsolete.

[04:48] Mas na filosofia, pelo contrário, não há como algo ficar obsoleto.
  But in philosophy, on the contrary, there is no way for something to become obsolete.

[04:50] Mesmo o mais antigo é ainda o mais atual.
  Even the oldest is still the most current.

[04:53] Tanto que até hoje lemos Platão, até hoje lemos Aristóteles e Descartes, até hoje lemos Kant, mas isso não significa que não haja rigor em filosofia.
  So much so that even today we read Plato, even today we read Aristotle and Descartes, even today we read Kant, but this does not mean that there is no rigor in philosophy.

[05:02] Pelo contrário, hoje em dia
  On the contrary, nowadays

[05:07] achamos que ciência é sinônimo de rigor.
  Achamos que ciência é sinônimo de rigor.

[05:09] E olha, às vezes a gente passa 4 horas num único parágrafo discutindo e escrutinizando uma única palavra.
  E olha, às vezes a gente passa 4 horas num único parágrafo discutindo e escrutinizando uma única palavra.

[05:17] E por fim, quatro. Filosofia não é discussão.
  E por fim, quatro. Filosofia não é discussão.

[05:20] Filosofia não é debate, não é rinha de certo e errado.
  Filosofia não é debate, não é rinha de certo e errado.

[05:22] A filosofia pode ser definida como uma busca pela verdade, mas pouco importa a verdade pro estudo de filosofia.
  A filosofia pode ser definida como uma busca pela verdade, mas pouco importa a verdade para o estudo de filosofia.

[05:31] Como assim? Calma, isso é complicado, eu sei.
  Como assim? Calma, isso é complicado, eu sei.

[05:34] Mas um certo sentido, o que é verdade ou não é determinado dentro do sistema filosófico, de modo que não podemos acreditar imediatamente em uma correspondência ingênua para com os fatos do mundo.
  Mas, em certo sentido, o que é verdade ou não é determinado dentro do sistema filosófico, de modo que não podemos acreditar imediatamente em uma correspondência ingênua com os fatos do mundo.

[05:45] Além disso, não há como ingenuamente buscar a verdade na história sem trivializá-la no processo.
  Além disso, não há como ingenuamente buscar a verdade na história sem trivializá-la no processo.

[05:53] Isso porque não há como tomar um lado, isto é, ser parcial, quando investiga essa história da filosofia sem com isso invalidá-la por inteiro.
  Isso porque não há como tomar um lado, isto é, ser parcial, quando se investiga essa história da filosofia sem com isso invalidá-la por inteiro.

[06:00] Não é como se Platão deixasse de ser verdadeiro apenas porque Níticou ou que as meditações
  Não é como se Platão deixasse de ser verdadeiro apenas porque Nitzsche o criticou ou que as meditações

[06:07] Metafísicas são falsas porque Kant criticou.
  Metafísicas são falsas porque Kant criticou.

[06:11] Se estamos de acordo com o primeiro ponto, que filosofia não é ma opinião, que ela é um discurso racional e universal, não há como olhar para a história da filosofia como uma galeria de opiniões, como uma sucessão de erros e enganos que culminaria numa grande verdade.
  Se estamos de acordo com o primeiro ponto, que filosofia não é uma opinião, que ela é um discurso racional e universal, não há como olhar para a história da filosofia como uma galeria de opiniões, como uma sucessão de erros e enganos que culminaria numa grande verdade.

[06:25] Novamente, isso seria trivializar o próprio sentido da filosofia.
  Novamente, isso seria trivializar o próprio sentido da filosofia.

[06:29] O que era verdadeiro no tempo não pode ser falso no outro.
  O que era verdadeiro em uma época não pode ser falso em outra.

[06:34] Ah, esquizofia.
  Ah, esquizofia.

[06:36] Então é verdade que Schopenhauer falou sobre as mulheres.
  Então é verdade que Schopenhauer falou sobre as mulheres.

[06:37] Então eu devo tomar a misogenia de Niet como verdadeira?
  Então eu devo tomar a misoginia de Nietzsche como verdadeira?

[06:42] E olha, ninguém precisa ser advogado de filósofo nenhum.
  E olha, ninguém precisa ser advogado de filósofo nenhum.

[06:47] Todos eles, apesar de filósofos, estavam inseridos em seu tempo e eram suscetíveis aos preconceitos de sua época.
  Todos eles, apesar de filósofos, estavam inseridos em seu tempo e eram suscetíveis aos preconceitos de sua época.

[06:50] Isso de nenhuma forma desculpa suas falas e ações.
  Isso de nenhuma forma desculpa suas falas e ações.

[06:52] Mas olha que interessante, se nós admitimos que filosofia é o discurso da razão e que ela se dá através de um sistema, então temos que é possível, a partir da própria coerência interna do sistema,
  Mas olha que interessante, se nós admitimos que filosofia é o discurso da razão e que ela se dá através de um sistema, então temos que é possível, a partir da própria coerência interna do sistema,

[07:08] criticar esta ou aquela posição pessoal do autor que não passa de opinião, de mero pensamento, que não tá à altura do sistema.
  criticar esta ou aquela posição pessoal do autor que não passa de opinião, de mero pensamento, que não está à altura do sistema.

[07:17] É por isso que mesmo Heidegger sendo nazista, tendo entrado no partido nazista e feito um monte de coisas horríveis, ainda é possível criticá-la a partir de sua própria filosofia, a partir de seu próprio sistema.
  É por isso que mesmo Heidegger sendo nazista, tendo entrado no partido nazista e feito um monte de coisas horríveis, ainda é possível criticá-la a partir de sua própria filosofia, a partir de seu próprio sistema.

[07:27] É possível, a partir da própria leitura de ser e tempo, criticar a adesão de Heidegger ao Partido nazista.
  É possível, a partir da própria leitura de Ser e Tempo, criticar a adesão de Heidegger ao Partido Nazista.

[07:36] E o que não falta são comentadores heideggerianos, que no sentido são até mais heideggerianos que o próprio Heidegger para criticá-lo.
  E o que não falta são comentadores heideggerianos, que no sentido são até mais heideggerianos que o próprio Heidegger para criticá-lo.

[07:45] Sendo assim estabelecido que filosofia não é opinião, não é mero pensamento, que ela não é útil, que ela não é ciência positiva, que ela não é religião, não é só decoreba de que os filósofos disseram, nem uma escrolada na página do Wikipedia.
  Sendo assim estabelecido que filosofia não é opinião, não é mero pensamento, que ela não é útil, que ela não é ciência positiva, que ela não é religião, não é só decoreba do que os filósofos disseram, nem uma escrolada na página da Wikipedia.

[07:58] Você me pergunta o que é filosofia?
  Você me pergunta o que é filosofia?

[08:01] E eu te respondo, sei lá, isso é você que vai ter que me dizer.
  E eu te respondo: sei lá, isso é você que vai ter que me dizer.

[08:04] Eu não posso dizer o que é
  Eu não posso dizer o que é

[08:08] filosofia sem já filosofar e sem com isso assumir uma posição e face da história da filosofia.
  filosofia sem já filosofar e sem com isso assumir uma posição em face da história da filosofia.

[08:12] O que estou propondo fazer aqui é indicar certas posturas, princípios e práticas pré-filosóficas que ajudem e possibilitem o estudo da filosofia.
  O que estou propondo fazer aqui é indicar certas posturas, princípios e práticas pré-filosóficas que ajudem e possibilitem o estudo da filosofia.

[08:24] A única coisa que eu posso fazer sem definir o que é filosofia é dizer o que ela não é e também dizer o que fazem aqueles que trabalham e vivem da filosofia.
  A única coisa que eu posso fazer sem definir o que é filosofia é dizer o que ela não é e também dizer o que fazem aqueles que trabalham e vivem da filosofia.

[08:34] Dito isso, o que faz o filósofo ou o historiador da filosofia?
  Dito isso, o que faz o filósofo ou o historiador da filosofia?

[08:37] Bom, podemos começar definindo o seu objeto.
  Bom, podemos começar definindo o seu objeto.

[08:40] O objeto primeiro e último da filosofia é o texto filosófico.
  O objeto primeiro e último da filosofia é o texto filosófico.

[08:45] O que define a filosofia enquanto atividade é a leitura e interpretação de textos filosóficos.
  O que define a filosofia enquanto atividade é a leitura e interpretação de textos filosóficos.

[08:54] Ah, esquizofia.
  Ah, esquizofia.

[08:56] Eu gosto de ficar filosofando, brisando, pensando na vida.
  Eu gosto de ficar filosofando, brisando, pensando na vida.

[08:58] Yara, iara, iara.
  Yara, iara, iara.

[09:00] Bom, eu sinto lhe informar, mas ideias, mais que formas, mais que essências, academicamente falando, a filosofia estuda textos.
  Bom, eu sinto lhe informar, mas ideias, mais que formas, mais que essências, academicamente falando, a filosofia estuda textos.

[09:09] Antes de definirmos o que seria um texto filosófico, é preciso justificar essa delimitação, né?
  Antes de definirmos o que seria um texto filosófico, é preciso justificar essa delimitação, né?

[09:13] Existem áreas cuja formação visa a prática.
  Existem áreas cuja formação visa a prática.

[09:15] Por exemplo, estuda-se engenharia para construir pontes, prédios, aviões.
  Por exemplo, estuda-se engenharia para construir pontes, prédios, aviões.

[09:20] O engenheiro pouco lê sobre teoria.
  O engenheiro pouco lê sobre teoria.

[09:23] Ele não precisa reconstruir o mundo toda hora que ele vai erguer uma ponte.
  Ele não precisa reconstruir o mundo toda hora que ele vai erguer uma ponte.

[09:27] E tudo bem, também tem outras áreas que é preciso ler bastante, mas que o objeto último não é o texto.
  E tudo bem, também tem outras áreas que é preciso ler bastante, mas que o objeto último não é o texto.

[09:32] Por exemplo, a psicologia, a antropologia.
  Por exemplo, a psicologia, a antropologia.

[09:37] Por mais teórico que essas áreas sejam, a psicologia visa o trabalho clínico e a antropologia o trabalho de campo.
  Por mais teórico que essas áreas sejam, a psicologia visa o trabalho clínico e a antropologia o trabalho de campo.

[09:44] Os textos apenas servem como indicações de posturas essenciais para se executar essa prática.
  Os textos apenas servem como indicações de posturas essenciais para se executar essa prática.

[09:49] É claro que em todas as áreas é possível ainda se formar e exercer o papel de pesquisador, cujo objetivo principal vai ser a pesquisa e produção de textos teóricos.
  É claro que em todas as áreas é possível ainda se formar e exercer o papel de pesquisador, cujo objetivo principal vai ser a pesquisa e produção de textos teóricos.

[09:59] Porém, a filosofia tem a especificidade de que seu material primário e seu objeto último coincidem no texto.
  Porém, a filosofia tem a especificidade de que seu material primário e seu objeto último coincidem no texto.

[10:05] Isso significa que na prática
  Isso significa que na prática

[10:11] Aprende-se filosofia com o objetivo de ler e escrever textos de filosofia.
  Aprende-se filosofia com o objetivo de ler e escrever textos de filosofia.

[10:16] É claro que é possível desdobrar 100 motivos para isso, sejam eles diretos ou indiretos.
  É claro que é possível desdobrar 100 motivos para isso, sejam eles diretos ou indiretos.

[10:23] Porém, o que importa assinalar aqui é que sendo a filosofia um sistema e o sistema sendo uma concatenação de conceitos e argumentos que gradualmente estabelece sua verdade no decorrer da progressão da leitura, então temos que para compreensão e expressão do sistema é necessária a construção de técnicas e princípios que possibilitem justamente a leitura e interpretação exata do texto.
  Porém, o que importa assinalar aqui é que, sendo a filosofia um sistema e o sistema uma concatenação de conceitos e argumentos que gradualmente estabelece sua verdade no decorrer da progressão da leitura, então temos que, para compreensão e expressão do sistema, é necessária a construção de técnicas e princípios que possibilitem justamente a leitura e interpretação exata do texto.

[10:46] Sim, de fato, isso só um pouco absurdo.
  Sim, de fato, isso é um pouco absurdo.

[10:49] Afinal, é impossível esgotar o texto.
  Afinal, é impossível esgotar o texto.

[10:52] Um texto é uma multiplicidade que é rica em sentidos.
  Um texto é uma multiplicidade rica em sentidos.

[10:57] Porém, o método que será exposto aqui tem como objetivo possibilitar o estudante, mais do que reconstruir os argumentos e o sistema estudado, apropriar-se do conteúdo e da verdade textual, de modo que o resultado obtido não é só mera repetição, mas sim
  Porém, o método que será exposto aqui tem como objetivo possibilitar ao estudante, mais do que reconstruir os argumentos e o sistema estudado, apropriar-se do conteúdo e da verdade textual, de modo que o resultado obtido não seja só mera repetição, mas sim

[11:12] singular compreensão, pois permite o estudante situar-se na história da filosofia, ocupar diferentes posições nela, participar na criação conceitual e com isso interpretar o mundo de um ponto de vista já mais visto.
  compreensão singular, pois permite ao estudante situar-se na história da filosofia, ocupar diferentes posições nela, participar na criação conceitual e com isso interpretar o mundo de um ponto de vista já mais visto.

[11:24] Mas é claro, isso só é possível mediante o entendimento do texto.
  Mas é claro, isso só é possível mediante o entendimento do texto.

[11:31] De nada adianta tentar criar algo novo se não se sabe abre aspas o que foi o velho.
  De nada adianta tentar criar algo novo se não se sabe, abro aspas, o que foi o velho.

[11:37] Enfim, por onde começamos?
  Enfim, por onde começamos?

[11:40] Sempre me perguntam, esquiso, por onde eu começo a estudar filosofia?
  Sempre me perguntam, esquiso, por onde eu começo a estudar filosofia?

[11:45] E essa é uma boa pergunta, pois faz parte da singularidade do estudo da filosofia não ter um começo propriamente falando.
  E essa é uma boa pergunta, pois faz parte da singularidade do estudo da filosofia não ter um começo propriamente falando.

[11:52] Normalmente dizem: "Ah, é preciso começar do começo."
  Normalmente dizem: "Ah, é preciso começar do começo."

[11:54] Mas onde é exatamente o começo em filosofia com os gregos?
  Mas onde é exatamente o começo em filosofia com os gregos?

[11:59] Isso é uma questão complicada que hoje em dia tá aberta em contestação.
  Isso é uma questão complicada que hoje em dia está aberta em contestação.

[12:02] Há bons motivos, sejam eles filosóficos, históricos, para se acreditar que a filosofia realmente começou na Grécia.
  Há bons motivos, sejam eles filosóficos, históricos, para se acreditar que a filosofia realmente começou na Grécia.

[12:09] Porém, essa afirmação é resultado de um movimento muito
  Porém, essa afirmação é resultado de um movimento muito

[12:13] Recente na historiografia filosófica.
  Recente na historiografia filosófica.

[12:15] Era costume nos antigos manuais de filosofia dizer que a origem da filosofia era oriental, que no começo havia filosofia indiana, chinesa, egípcia.
  Era costume nos antigos manuais de filosofia dizer que a origem da filosofia era oriental, que no começo havia filosofia indiana, chinesa, egípcia.

[12:24] Além disso, a questão do começo nos coloca um outro problema.
  Além disso, a questão do começo nos coloca um outro problema.

[12:26] Tem-se a impressão de que, por estar no começo, ela é mais fácil, ela é mais simples.
  Tem-se a impressão de que, por estar no começo, ela é mais fácil, ela é mais simples.

[12:31] E olha, eu vou confessar uma coisa.
  E olha, eu vou confessar uma coisa.

[12:34] Em 5 anos que eu estudo formalmente filosofia na faculdade, eu quase nunca toquei em Aristóteles, justamente porque eu sei de tão difícil que ele é.
  Em 5 anos que eu estudo formalmente filosofia na faculdade, eu quase nunca toquei em Aristóteles, justamente porque eu sei de tão difícil que ele é.

[12:44] Eu sei que ele é um gigante pra tradição, mas eu não me sinto tão maduro suficiente, filosoficamente falando, eu não me sinto preparado para encarar seus escritos.
  Eu sei que ele é um gigante para a tradição, mas eu não me sinto tão maduro suficiente, filosoficamente falando, eu não me sinto preparado para encarar seus escritos.

[12:55] Então, se você for começar a estudar filosofia do zero, é melhor tá bem preparado, porque ironicamente talvez o começo seja o mais difícil de todos.
  Então, se você for começar a estudar filosofia do zero, é melhor estar bem preparado, porque ironicamente talvez o começo seja o mais difícil de todos.

[13:04] Com isso, não quero dizer que haja partes mais fáceis do que outras no estudo da filosofia.
  Com isso, não quero dizer que haja partes mais fáceis do que outras no estudo da filosofia.

[13:07] Não importa por onde comecemos.
  Não importa por onde comecemos.

[13:09] Sentissse um analfabeto
  Sentir-se um analfabeto

[13:13] perante o texto será uma experiência recorrente.
  Diante do texto será uma experiência recorrente.

[13:14] Não importa se comecer por Decarts, por Regel, por Platão, por Foucault.
  Não importa se começar por Descartes, por Hegel, por Platão, por Foucault.

[13:19] Filosofia é difícil.
  Filosofia é difícil.

[13:22] Seu estudo requer tempo, paciência e técnica.
  Seu estudo requer tempo, paciência e técnica.

[13:26] Dito isso, por onde começamos, né?
  Dito isso, por onde começamos, né?

[13:29] Isso vai depender muito do seu interesse, vai depender muito do seu desejo e de como foi seu primeiro encontro com a filosofia.
  Isso vai depender muito do seu interesse, vai depender muito do seu desejo e de como foi seu primeiro encontro com a filosofia.

[13:37] Pode ser que você se interesse por existencialismo, pegue Sartre para ler e acaba descobrindo uma coisa ou outra sobre fenomenologia.
  Pode ser que você se interesse por existencialismo, pegue Sartre para ler e acabe descobrindo uma coisa ou outra sobre fenomenologia.

[13:43] Pode ser que seu interesse seja lógica.
  Pode ser que seu interesse seja lógica.

[13:45] Seu primeiro contato foi com Vitgeninstein, você não entendeu nada.
  Seu primeiro contato foi com Wittgenstein, você não entendeu nada.

[13:47] É lógico, é Witgenstein.
  É lógico, é Wittgenstein.

[13:49] E daí você vai para seus predecessores, tenta pegar para ler Freg, Hussel, sei lá, tudo depende do seu primeiro contato.
  E daí você vai para seus predecessores, tenta pegar para ler Frege, Husserl, sei lá, tudo depende do seu primeiro contato.

[13:56] Mas por que isso?
  Mas por que isso?

[14:00] Porque querendo ou não, pegando um único autor para se ler, acaba-se por estudar toda a história da filosofia.
  Porque querendo ou não, pegando um único autor para se ler, acaba-se por estudar toda a história da filosofia.

[14:08] Quem falava isso para mim era um professor regueliano que tive no primeiro semestre.
  Quem falava isso para mim era um professor hegeliano que tive no primeiro semestre.

[14:11] E você não precisa
  E você não precisa

[14:13] ser regueliano para entender esse ponto.
  É reguliano para entender esse ponto.

[14:16] Ao ler um único autor, você acaba por estudar toda a história da filosofia.
  Ao ler um único autor, você acaba por estudar toda a história da filosofia.

[14:20] E esse é o caso, porque durante a leitura você é forçado a investigar a tradição.
  E esse é o caso, porque durante a leitura você é forçado a investigar a tradição.

[14:25] Isso porque um texto de filosofia não é escrito no vácuo.
  Isso porque um texto de filosofia não é escrito no vácuo.

[14:27] Ele tá em constante diálogo com a tradição.
  Ele está em constante diálogo com a tradição.

[14:29] Em um sentido, os problemas aos quais o sistema responde são herdados da tradição.
  Em um sentido, os problemas aos quais o sistema responde são herdados da tradição.

[14:38] E é justamente daí que a filosofia retira seu fundo de necessidade.
  E é justamente daí que a filosofia retira seu fundo de necessidade.

[14:42] Sendo assim, em um sentido, se lê um autor e ler toda a história da filosofia, é porque é impossível satisfazer-se somente com um livro.
  Sendo assim, em um sentido, se lê um autor e ler toda a história da filosofia, é porque é impossível satisfazer-se somente com um livro.

[14:47] É impossível compreender um livro sem antes ter uma compreensão de sua história.
  É impossível compreender um livro sem antes ter uma compreensão de sua história.

[14:53] Isso, num sentido responde ao problema do começo, porque no fundo tanto faz por onde se começa.
  Isso, num sentido responde ao problema do começo, porque no fundo tanto faz por onde se começa.

[15:00] Inevitavelmente teremos que investigar a tradição.
  Inevitavelmente teremos que investigar a tradição.

[15:02] E como que eu sei qual autor ou qual assunto investigar?
  E como que eu sei qual autor ou qual assunto investigar?

[15:07] O próprio texto, em consonância com seus interesses, irá te guiar pela história.
  O próprio texto, em consonância com seus interesses, irá te guiar pela história.

[15:12] Por exemplo, eu pego o antiédico para
  Por exemplo, eu pego o antiédico para

[15:14] ler, eu não posso me contentar só com ele.
  Ler, eu não posso me contentar só com ele.

[15:16] Eu preciso entender Freud, preciso ler Lacan, preciso ler Marx, pegar o Capital.
  Eu preciso entender Freud, preciso ler Lacan, preciso ler Marx, pegar o Capital.

[15:21] Eu preciso pegar Levistro e com isso sir e assim por diante.
  Eu preciso pegar Lévi-Strauss e com isso, e assim por diante.

[15:24] E quando você pega esses autores para ler, você verá que esse movimento se repete de modo que o estudo filosófico beira um perpétuo inacabamento.
  E quando você pega esses autores para ler, você verá que esse movimento se repete de modo que o estudo filosófico beira um perpétuo inacabamento.

[15:33] Agora, de maneira previsível, quando falamos de leitura, surge a questão dos pré-requisitos.
  Agora, de maneira previsível, quando falamos de leitura, surge a questão dos pré-requisitos.

[15:39] Vocês me perguntam: "Ah, esquizofia, quais são os pré-requisitos para se ler tal autor?
  Vocês me perguntam: "Ah, esquizofrenia, quais são os pré-requisitos para se ler tal autor?

[15:47] O que eu preciso saber antes para poder ler tal obra?"
  O que eu preciso saber antes para poder ler tal obra?"

[15:52] E e eu vou respondo.
  E eu respondo.

[15:54] Nada.
  Nada.

[15:57] Como assim nada?
  Como assim nada?

[15:59] É óbvio que é interessante você ter um conhecimento prévio do assunto, ter familiaridade com vocabulário técnico, saber isso ou aquilo da área que você quer se aprofundar.
  É óbvio que é interessante você ter um conhecimento prévio do assunto, ter familiaridade com vocabulário técnico, saber isso ou aquilo da área que você quer se aprofundar.

[16:07] Isso é óbvio.
  Isso é óbvio.

[16:08] Porém, por mais óbvio que isso seja, isso não importa tanto, uma vez que é a partir da
  Porém, por mais óbvio que isso seja, isso não importa tanto, uma vez que é a partir da

[16:15] leitura que constata-se esses buracos em seu entendimento.
  leitura que constata esses buracos em seu entendimento.

[16:20] E é concomitante a leitura, ou seja, enquanto você lê a obra principal que você deve ir atrás daquilo que te falta.
  E é concomitante à leitura, ou seja, enquanto você lê a obra principal, você deve ir atrás daquilo que lhe falta.

[16:28] Tá, mas por que que esse é o caso?
  Certo, mas por que esse é o caso?

[16:30] Vocês me perguntam.
  Vocês me perguntam.

[16:33] Bom, por uma simples razão, se formos nos ater sempre a pré-requisitos, se sempre que para ler algo precisar de outra leitura, então eu nunca vou ler aquilo que quero e preciso ler.
  Bom, por uma simples razão: se formos nos ater sempre a pré-requisitos, se sempre que para ler algo precisar de outra leitura, então eu nunca vou ler aquilo que quero e preciso ler.

[16:44] Como assim?
  Como assim?

[16:46] Vamos pegar um exemplo fácil.
  Vamos pegar um exemplo fácil.

[16:48] Pegamos diferença e repetição do deles.
  Pegamos "Diferença e Repetição" do Deleuze.

[16:50] Você abre o livro e a primeira coisa que você vai dar de cara vai ser Deleuze, citando Niet, criticando a dialética em Hegel.
  Você abre o livro e a primeira coisa com que vai se deparar é Deleuze, citando Nietzsche, criticando a dialética em Hegel.

[16:58] Ora, você com uma pessoa sensata, para tudo que tá fazendo e começa ler Hegel.
  Ora, você, como pessoa sensata, para tudo o que está fazendo e começa a ler Hegel.

[17:01] Durante a leitura você vai perceber que Hegel tá comentando a Crítica da Razão Pura de Kant.
  Durante a leitura, você vai perceber que Hegel está comentando a "Crítica da Razão Pura" de Kant.

[17:05] Aí você como pessoa sensata, vai parar tudo para começar ler Kant.
  Aí você, como pessoa sensata, vai parar tudo para começar a ler Kant.

[17:09] Aí lendo Kant você percebe que ele tá comentando Decarts, que por sua vez está comentando escolásticos, que por
  Aí, lendo Kant, você percebe que ele está comentando Descartes, que por sua vez está comentando os escolásticos, que por

[17:16] Sua vez comentam neoplatônicos que estão falando de Aristóteles, comentando Platão, que por sua vez faz um diálogo socrático com pré-socráticos.
  Sua vez comentam neoplatônicos que estão falando de Aristóteles, comentando Platão, que por sua vez faz um diálogo socrático com pré-socráticos.

[17:25] E aí quem os pré-socráticos comentam?
  E aí, quem os pré-socráticos comentam?

[17:29] Então, se sempre nos atermos aos pré-requisitos, sem querer, iremos necessariamente chegar em Deus, por assim dizer, chegar no motor imóvel, na causa sem causa, que adivinhe, não tem como determinar.
  Então, se sempre nos ativermos aos pré-requisitos, sem querer, iremos necessariamente chegar em Deus, por assim dizer, chegar no motor imóvel, na causa sem causa, que adivinhe, não tem como determinar.

[17:40] O que eu quero dizer com isso é que em filosofia sempre se pega o bonde andando, sempre vai faltar algo.
  O que eu quero dizer com isso é que em filosofia sempre se pega o bonde andando, sempre vai faltar algo.

[17:47] E é claro, é nosso trabalho correr atrás desse algo que falta, mas não é a falta que vai determinar e orientar nosso estudo e sim nosso desejo.
  E é claro, é nosso trabalho correr atrás desse algo que falta, mas não é a falta que vai determinar e orientar nosso estudo e sim nosso desejo.

[17:57] Por isso eu digo que a busca pelos pré-requisitos deve ser feita concomitantemente à leitura e é para isso que serve os comentadores.
  Por isso eu digo que a busca pelos pré-requisitos deve ser feita concomitantemente à leitura e é para isso que servem os comentadores.

[18:06] Em filosofia temos dois tipos de material.
  Em filosofia temos dois tipos de material.

[18:08] Nós temos o primário e o secundário.
  Nós temos o primário e o secundário.

[18:11] O primário é o texto principal, a obra filosófica, o
  O primário é o texto principal, a obra filosófica, o

[18:16] Clássico.
  Clássico.

[18:19] O secundário é o comentário da obra primária, o livro de introdução, manual de filosofia.
  O secundário é o comentário da obra primária, o livro de introdução, manual de filosofia.

[18:24] A gente não vai discutir aqui se o comentador é filósofo ou não ou se o que ele faz é filosofia ou não, até porque isso não importa no momento.
  A gente não vai discutir aqui se o comentador é filósofo ou não, ou se o que ele faz é filosofia ou não, até porque isso não importa no momento.

[18:30] Além disso, de certo modo, é muito difícil um clássico se estabelecer sem ser em diálogo com a tradição.
  Além disso, de certo modo, é muito difícil um clássico se estabelecer sem ser em diálogo com a tradição.

[18:37] E isso implica direta ou indiretamente o comentário de outros clássicos.
  E isso implica direta ou indiretamente o comentário de outros clássicos.

[18:42] Então, em um sentido, todo clássico da tradição é um comentário da tradição.
  Então, em um sentido, todo clássico da tradição é um comentário da tradição.

[18:47] Isso pode passar despercebido numa leitura não informada por ela.
  Isso pode passar despercebido numa leitura não informada por ela.

[18:49] Ora, o comentário serve justamente para isso.
  Ora, o comentário serve justamente para isso.

[18:54] Ele explicita essas conexões e aprofunda aspectos do texto que, em um primeiro momento, são subentendidos ou passam batidos.
  Ele explicita essas conexões e aprofunda aspectos do texto que, em um primeiro momento, são subentendidos ou passam batidos.

[19:01] Não obstante, sendo texto filosófico uma multiplicidade, ele sempre excede aquilo que ele tematiza inicialmente.
  Não obstante, sendo texto filosófico uma multiplicidade, ele sempre excede aquilo que ele tematiza inicialmente.

[19:11] Sempre há pontas soltas que são impossíveis de esgotar, não importa o número de leituras.
  Sempre há pontas soltas que são impossíveis de esgotar, não importa o número de leituras.

[19:12] E é isso que faz um clássico ser um
  E é isso que faz um clássico ser um

[19:16] Clássico. Ele sempre tem algo a nos dizer.
  Clássico. Ele sempre tem algo a nos dizer.

[19:18] Ele sempre tem algo diferente a nos dizer.
  Ele sempre tem algo diferente a nos dizer.

[19:20] Não importa a quantidade de vezes que lemos ou o tempo que se passe desde sua data de publicação, há sempre conceitos para se explorar, relações para se investigar, coisas para serem tematizadas, criticadas, reavaliadas, enfim, um comentário serve para isso.
  Não importa a quantidade de vezes que lemos ou o tempo que se passe desde sua data de publicação, há sempre conceitos para se explorar, relações para se investigar, coisas para serem tematizadas, criticadas, reavaliadas, enfim, um comentário serve para isso.

[19:34] E há um jeito certo e um jeito errado de se utilizar comentadores.
  E há um jeito certo e um jeito errado de se utilizar comentadores.

[19:37] Comencemos pelo jeito errado.
  Comencemos pelo jeito errado.

[19:42] Normalmente, por sua publicação ser mais recente, a linguagem do comentário é mais fácil.
  Normalmente, por sua publicação ser mais recente, a linguagem do comentário é mais fácil.

[19:46] É uma linguagem mais atual, não tem além da barreira linguística a interposição da barreira temporal.
  É uma linguagem mais atual, não tem além da barreira linguística a interposição da barreira temporal.

[19:51] E de uma certa forma o comentário explica, ele explicita o que se passa na obra principal, de modo que, por ser mais fácil, tem-se a impressão de que aprende-se mais filosofia apenas lendo o comentador.
  E de uma certa forma o comentário explica, ele explicita o que se passa na obra principal, de modo que, por ser mais fácil, tem-se a impressão de que aprende-se mais filosofia apenas lendo o comentador.

[20:06] Afinal, para que eu vou perder tempo com algo que é difícil, né?
  Afinal, para que eu vou perder tempo com algo que é difícil, né?

[20:10] Mas o problema disso, de somente estudar por meio de
  Mas o problema disso, de somente estudar por meio de

[20:16] comentadores, é que além da falsa

[20:18] impressão de que estamos aprendendo,

[20:20] também passa batido a genialidade do

[20:23] texto primário e a genialidade do

[20:25] próprio comentário. Veja, já discutimos

[20:28] que filosofia não é uma questão de saber

[20:29] isso, isso e aquilo que foi dito por tal

[20:31] e tal autor em tal e tal época. Bom, se

[20:34] filosofia não é decoreba, de que adianta

[20:36] somente ler os comentadores da esperança

[20:38] v extrair alguma doutrina, alguma

[20:41] verdade escondida que no fim do dia não

[20:42] vai servir para nada? Além disso, muito

[20:45] das minúcias de um bom comentário se

[20:47] perdem, se não se tem a mínima noção do

[20:50] que se trata o texto principal. Um

[20:52] comentário é apenas isso, um comentário.

[20:56] E nem por isso ele deixa de ser genial.

[20:58] Porém, ele só faz sentido em relação ao

[21:00] texto primário, na medida em que comenta

[21:02] o clássico. O principal continua sendo a

[21:05] leitura do material primário e esse é o

[21:07] único modo de dar sentido ao comentário.

[21:11] Sendo assim, se esse é o caso, como ler

[21:14] um clássico? Bom, esse seria o momento

[21:17] perfeito para começarmos a explorar a

[21:19] técnica. No entanto, antes de mais nada,

[21:22] é preciso explicitar um conjunto de

[21:24] princípios sem os quais ela não faria

[21:26] sentido. Afinal, a técnica por si só não

[21:29] basta. É preciso toda uma atitude

[21:32] perante o texto e a filosofia e sua

[21:35] história para que ela comece a fazer

[21:37] sentido. Ora, dito isto, são esses os

[21:40] princípios: princípio da verdade,

[21:42] princípio da claridade e princípio da

[21:45] caridade.

[21:48] Eu insisto na necessidade desses

[21:50] princípios porque costumeiramente e

[21:52] habitualmente estamos muito acostumados

[21:55] a formar opiniões precipitadas sobre as

[21:57] coisas. A todo momento somos forçados

[22:00] nos posicionar e a todo momento é

[22:02] preciso emitir uma opinião. E sabe, tudo

[22:05] bem às vezes suspender o juízo. Às vezes

[22:07] compensa mais observar em silêncio,

[22:10] amadurecer sua opinião para assim dizer

[22:12] algo que vale a pena ser dito. É isso

[22:15] que separa um estudioso de um

[22:16] palpiteiro.

[22:18] A leitura de um texto filosófico não é a

[22:21] mesma coisa que qualquer outra leitura.

[22:23] Ler filosofia não é a mesma coisa que

[22:24] ler um romance, um jornal, uma peça

[22:27] publicitária. Num sentido, lê-se

[22:29] filosofia e durante a leitura é preciso

[22:32] pensar, é preciso refletir, é preciso

[22:36] considerar, mas isso não significaria

[22:39] contra o autor, pelo contrário, e eis o

[22:43] primeiro princípio, princípio da

[22:45] verdade. Não se deve ler filosofia

[22:47] tentando refutar o autor. Antes de

[22:49] formular uma opinião, antes de formular

[22:51] uma crítica, é preciso se certificar de

[22:54] que se entendeu do que se trata. É

[22:56] preciso suspender o juízo para abrir as

[22:59] portas da compreensão. É ingênuo

[23:01] acreditar que os filósofos não pensaram

[23:03] nas objeções que você formulou durante 5

[23:06] minutos de reflexão. Em um sentido, tudo

[23:09] que você pensou, provavelmente já foi

[23:11] pensado pelo autor. Afinal, isso faz

[23:14] parte da exigência da filosofia como

[23:16] pensamento sistemático. Não sendo

[23:18] filosofia mera opinião, nem mero

[23:20] pensamento arbitrário, ela não pode

[23:22] simplesmente estar errada. Ela não pode

[23:26] simplesmente ser refutada para que um

[23:28] pensamento se eleve ao nível de sistema.

[23:31] É preciso esgotar todas possíveis

[23:34] objeções. É preciso de um tal rigor

[23:36] lógico, de um tal rigor conceitual,

[23:40] de modo que não é possível simplesmente

[23:43] dizer que um autor errou. Aliás, não faz

[23:46] nem sentido falar de refutações no

[23:48] sentido forte do termo, uma vez que algo

[23:50] que uma vez foi verdade, de um ponto de

[23:53] vista lógico conceitual, não pode vir a

[23:55] ser falso. Ai, mas Niet criticou Platão,

[23:59] Niet refutou Hegel. Veja bem, por mais

[24:01] que Niet tenha criticado Platão, Decarts

[24:03] e Hegel, o que Platão, Decarts e Hegel

[24:06] disseram não deixa de ser mais ou menos

[24:08] verdade ou mais ou menos valioso.

[24:10] Tanto que mesmo após terem sido

[24:13] refutados, a gente ainda continua a ler

[24:15] Platão, Decarts e Hegel. É preciso

[24:18] insistir nesse ponto, pois normalmente

[24:20] há muitas péssimas leituras de filosofia

[24:23] por aí que decorrentes de uma postura

[24:25] errada em relação à história da

[24:27] filosofia, tratam a filosofia como um

[24:29] grande super trunfo em que temos

[24:31] filósofos fortes e fracos, uma sucessão

[24:34] de refutações que do ponto de vista do

[24:37] senso comum pode fazer todo sentido, mas

[24:39] pois olhando pro canon, é possível notar

[24:41] um gradual progresso, uma gradual

[24:43] evolução e complexificação dos temas e

[24:46] dos argumentos. Porém, não é possível

[24:48] mantermos essa posição sem com isso

[24:50] trivializar a filosofia. Isso porque o

[24:52] que uma vez foi verdadeiro não pode vir

[24:54] a ser falso. Como que pode um pensamento

[24:57] que elevou-se à categoria de sistema,

[24:59] que esgotou todas as possíveis objeções

[25:01] lógicas? Como que é possível refutá-lo?

[25:05] Isso indica que o próprio conceito de

[25:07] refutação e de crítica, como estamos

[25:10] acostumados, não faz muito sentido para

[25:12] avaliar o sucesso ou fracasso da

[25:14] filosofia. No sentido é isso que separa

[25:17] uma crítica imanente e uma crítica

[25:20] transcendente.

[25:21] Criticar um texto filosófico fora de

[25:24] seus pressupostos, fora de seu sistema,

[25:27] é o que chamamos de crítica

[25:28] transcendente. E ela é muito fácil.

[25:32] Dizer que Heidegger é nazista, que

[25:34] Adorno é reformista, que Hana Arent é

[25:36] liberal é muito fácil, no sentido que

[25:39] nem começamos a pensar quando fazemos

[25:41] esse tipo de crítica. Esse tipo de

[25:43] crítica não diz nada a respeito do

[25:45] sistema filosófico em questão. Ele diz

[25:48] mais sobre a pessoa que critica do que

[25:50] do alvo criticado. E é por isso que a

[25:53] crítica transcendente é reacionária.

[25:56] Nela critica-se o autor não em

[25:58] detrimento de seus pensamentos, mas de

[26:00] sua pessoa. Há um tom de condenação

[26:03] moral em tudo isso. A única e verdadeira

[26:06] crítica é imanente, isto é, ela se dá no

[26:09] interior do sistema, se dá no interior

[26:12] do discurso da razão. Ou seja, uma

[26:14] verdadeira crítica é aquela que se é

[26:17] mais platônico que Platão, que se é mais

[26:19] heideggeriano que Heidegger, apontando

[26:22] inconsistências no seu sistema, mas não

[26:25] do ponto de vista lógico, conceitual,

[26:27] pois como a gente já definiu, para algo

[26:29] ser filosofia, ela exige o maior rigor

[26:31] nessas questões, mas sim do ponto de

[26:34] vista da própria coerência do sistema. É

[26:37] como se ainda não fôssemos longe

[26:39] bastante, como se o pensamento não

[26:41] tivesse sido realmente levado às últimas

[26:44] consequências.

[26:46] Sendo assim, uma crítica imanente é

[26:48] aquela operada no interior conceitual do

[26:51] autor criticado, que opera no mesmo

[26:53] horizonte ao qual o autor se situa. Isso

[26:57] significa que as indicações de leitura

[26:59] devem sempre se dar no interior do

[27:00] texto. Não se trata de filosofar fora do

[27:03] texto. Isso não existe. Se a filosofia é

[27:06] mediada pela história da filosofia, é

[27:09] daí que ela retira sua potência, sua

[27:11] necessidade. É preciso filosofar em cima

[27:15] de seu conteúdo objetivo, não em cima de

[27:17] divagações narcísicas.

[27:19] Em nenhum sentido, a crítica

[27:21] transcendente é muito segura. A

[27:23] emanência é a única maneira pela qual o

[27:25] pensamento se encontra com a diferença.

[27:28] Tanto que essa é a vantagem da crítica

[27:30] transcendente. Se mesmo apelando para

[27:32] princípios e posições progressistas, a

[27:34] crítica transcendente ainda é

[27:36] racionária, é porque no fundo ela não se

[27:38] arrisca, ela é uma crítica muito

[27:40] conservadora, ela não faz um real

[27:42] contato com o outro, com aquilo que é

[27:44] diferente. E é daí que vem seu caráter

[27:46] de condenação moral. A preguiça de

[27:49] pensar esconde um medo do outro, um medo

[27:52] da diferença, e com isso acaba por

[27:55] contribuir para prevalência do mesmo,

[27:57] pro império do senso comum. Ora, no

[28:00] campo do senso comum, tudo passa de mera

[28:02] opinião. No campo do senso comum,

[28:05] pensamos que agimos, pensamos que somos

[28:07] livres, se ao menos perceber que com

[28:09] isso não somos os reais sujeitos do

[28:11] pensamento, abandonando a capacidade

[28:14] especulativa, abandonando toda a chance

[28:17] de reflexão sobre a tradição. E o que

[28:19] nos resta é rendernos ao agora.

[28:22] Sendo assim, antes de julgar, antes de

[28:24] se posicionar em relação ao filósofo, é

[28:27] preciso constantemente se perguntar: "Eu

[28:30] realmente entendi o que ele disse? Pois

[28:32] se corremos o risco de dizer mais do

[28:34] mesmo, o risco de involuntariamente

[28:37] incorrermos em posições reacionárias.

[28:40] Mas textos de filosofia são difíceis.

[28:43] Eles não são que nem uma volta ao

[28:45] parque. Há algumas pessoas que dirão que

[28:47] isso é uma questão de estilo, que é por

[28:49] floreio e que eles, abre aspas escrevem

[28:53] difícil para esconder sua burrice. Um

[28:56] influencer bastante grande disse algo

[28:59] nessas linhas e meio que a razão desse

[29:00] vídeo existir é em resposta a essa

[29:03] grosélia.

[29:04] Filósofos não escrevem difícil para

[29:06] parecerem inteligentes. Há muitas

[29:08] questões aí. a questão linguística.

[29:11] Normalmente os textos de filosofia são

[29:13] traduzidos e toda tradução, num certo

[29:15] sentido, implica uma interpretação do

[29:17] sistema filosófico em questão que nunca

[29:19] pode ser fiel ao que o autor disse

[29:21] inicialmente.

[29:22] A questão temporal escreveu-se para um

[29:25] outro tempo, para uma outra época, cujas

[29:28] referências que antes faziam sentido,

[29:29] que antes eram óbvias para um povo de

[29:31] uma determinada época, não são as mesmas

[29:34] que fazem sentido pra gente. Há questão

[29:36] de público. escreveu-se tendo em mente

[29:38] um determinado público alvo, outros

[29:40] filósofos, outros acadêmicos e

[29:42] intelectuais que não somente estavam

[29:45] familiarizados com o assunto, como

[29:47] também, e agora entramos no último

[29:48] ponto, estavam familiarizados com a

[29:50] terminologia, o vocabulário técnico do

[29:52] qual se falava. Ou seja, filosofia

[29:55] possui rigor, filosofia possui séculos

[29:57] de tradição. É ingênuo para não dizer

[30:00] outra coisa, acreditar que é possível

[30:02] sem o devido estudo, pegar o bonde

[30:04] andando e entender tudo. Sendo assim,

[30:06] chegamos no segundo princípio. Princípio

[30:09] da claridade. Não há pessoa mais clara

[30:11] que o filósofo para expor seu próprio

[30:13] sistema. E esse é o caso, pois segue da

[30:16] primeira definição de filosofia como

[30:18] sistema. Uma obra filosófica não se

[30:21] escreve do dia paraa noite. Ela é o

[30:23] resultado de um longo processo de

[30:25] investigação de constante escrita e

[30:27] reescrita. Tudo o que foi escrito foi

[30:30] ponderado 10, 20 vezes, de modo que tudo

[30:34] que tá escrito no texto é necessário. Ou

[30:37] seja, não é a parte supérfula num texto

[30:38] de filosofia. Isso significa que mesmo

[30:41] as repetições têm sentido e é o papel do

[30:44] intérprete interpretar a repetição. O

[30:47] filósofo não tá escrevendo para te

[30:48] enrolar se o texto parece difícil ou

[30:51] obscuro, é por conta da dificuldade ou

[30:53] obscuridade do próprio objeto de

[30:56] investigação. Pegamos Heidegger, por

[30:58] exemplo, que é o autor que eu tô lendo

[31:00] no momento. Foi preciso inventar todo um

[31:02] novo vocabulário pra investigação do

[31:04] ser, pois a própria linguagem comum, o

[31:07] próprio modo como normalmente falamos e

[31:09] pensamos, já implica certos

[31:11] comprometimentos metafísicos que atestam

[31:14] pro esquecimento do ser. De modo que em

[31:16] Heidegger investiga-se o ser ao mesmo

[31:19] tempo em que se procura uma linguagem

[31:22] para colocar a questão. Sendo assim,

[31:25] como que um texto como esse poderia ser

[31:27] claro se constantemente os fundamentos

[31:29] mínimos da linguagem são desconstruídos,

[31:32] pois a linguagem normal já é um sinal de

[31:35] desvirtuamento?

[31:37] Sendo assim, filósofos escrevem difícil

[31:39] porque queriam? ou isso é puro reflexo

[31:41] de minha limitação e incapacidade de

[31:44] sequer por um segundo cogitar que

[31:46] existam coisas além de minha

[31:47] compreensão, mas que dado devido tempo

[31:50] estudo, eu poderia compreender, mas como

[31:52] eu tchei os de obscuros, burros e

[31:54] ignorantes, acabei por barrar qualquer

[31:56] tentativa e possibilidade de

[31:57] entendimento. Novamente, acabei me

[32:00] exaltando. Críticas assim dizem mais

[32:02] sobre a pessoa que critica do que o

[32:05] autor criticado.

[32:07] Já ouvi gente dizendo por aí: "Ah, mas o

[32:09] papel da linguagem é comunicar". Então

[32:11] os filósofos como comunicadores falham.

[32:14] Primeiro que o objetivo da linguagem não

[32:16] é somente comunicar. Eu não vou explicar

[32:19] esse ponto porque quem tiver interesse,

[32:20] ó, só pesquisar que que é um jogo de

[32:22] linguagem. Segundo que filósofo não é

[32:25] comunicador, ele não é divulgador

[32:27] científico, ele é filósofo. Filosofia

[32:30] tem tradição e vocabulário técnico, da

[32:33] mesma forma como as outras áreas das

[32:35] ciências humanas e da mesma forma como

[32:37] as outras ciências. Naturalmente somos

[32:39] levados a considerar a questão de

[32:41] acessibilidade.

[32:42] Se não existe pessoa mais clara que o

[32:44] filósofo para expor seu sistema, então

[32:47] como que o trabalhador hipotético que

[32:49] trabalha seis por um vai conseguir pegar

[32:51] para ler a crítica da razão pura? Por

[32:54] acaso sua avó consegue entender sua tese

[32:56] de mestrado? Se a resposta for não para

[32:58] essas questões, então a filosofia

[33:00] elitista, ela deve ser descartada. Aí

[33:04] entramos numa questão engraçada que vai

[33:06] esbarrar no ponto da utilidade da

[33:07] filosofia, porque de um ponto de vista

[33:10] pragmático e utilitário, a filosofia tem

[33:13] dois problemas. Um, ela parece inútil e

[33:16] dois, ela tem uma grande barreira de

[33:18] entrada. Além dela não ter utilidade

[33:21] prática pro dia a dia, do mesmo modo que

[33:23] costurar uma roupa, levantar uma parede

[33:25] e trazer o bendito pão de cada dia, a

[33:28] suposta obscuridade e o vocabulário

[33:31] técnico serve com grande barreira de

[33:33] entrada pra filosofia. Segundo essas

[33:35] pessoas, uma filosofia não é útil se ela

[33:38] não for comunicável às massas. Ou seja,

[33:41] se eu não conseguir traduzir numa

[33:42] linguagem clara, distinta, em outras

[33:45] palavras, se eu não conseguir

[33:46] simplificar ao máximo o conteúdo, o

[33:49] trabalhador médio, o periférico, a

[33:51] minoria média não entenderia. Ora, meu

[33:54] caro, essa exigência é engraçada porque

[33:57] um, ninguém pede clareza de um artigo

[33:58] científico cheio de termo técnico e

[34:01] metodologia, mas porque filosofia todo

[34:03] mundo acha que pode dar pitaco. Ninguém

[34:05] anula o trabalho de um advogado, de um

[34:08] engenheiro ou de um médico por utilizar

[34:10] o vocabulário de sua área durante seu

[34:13] trabalho para comunicar com seus pares.

[34:16] O mesmo critério deveria se aplicar ao

[34:18] filósofo nesse caso também. E dois, além

[34:21] disso, creio que a suposição de que as

[34:22] massas só entenderiam filosofia se

[34:24] simplificasse o conteúdo, não somente é

[34:27] ingênua, como também é um perverso tipo

[34:31] de condescência que nivela tudo por

[34:33] baixo e acaba por reafirmar uma certa

[34:36] superioridade moral de quem fala. Eu

[34:39] digo que esse é o caso, pois por que

[34:42] diabos um trabalhador, uma pessoa que

[34:44] estuda em escola pública, uma pessoa

[34:46] periférica, um LGBTQI a mais, uma pessoa

[34:49] preta, parda ou indígena? Por que diabos

[34:51] elas não entenderiam filosofia? Quem é

[34:54] você para afirmar isso?

[34:56] Ai, o povo tem fome, eles não têm tempo

[34:58] para estudar filosofia. Então é isso,

[35:01] uma pessoa que passa necessidade só pode

[35:03] ser definida por suas necessidades.

[35:05] Então quer dizer que uma pessoa pobre

[35:07] não pode ter acesso à cultura,

[35:09] literatura, cinema, lazer? Ela não pode

[35:12] exercer sua capacidade intelectual só

[35:13] porque ela é pobre? Pô, isso tem um

[35:15] nome. Fica muito claro como a partir de

[35:18] certos princípios progressistas, ou

[35:21] melhor, como a partir do senso comum,

[35:24] acaba-se por defender o indefensável.

[35:27] Creio que todo mundo, e quando eu digo

[35:29] todo mundo, eu digo todo mundo, sem

[35:32] exceção, todo mundo pode filosofar.

[35:35] Por mais difícil que seja ler, por mais

[35:37] difícil que seja interpretar, dadas as

[35:40] devidas condições, todo mundo pode vir a

[35:43] filosofar.

[35:45] Sendo assim, se queremos ser acessíveis

[35:47] em filosofia, não devemos no rebaixar o

[35:50] nível do senso comum, nivelar tudo por

[35:52] baixo, como se as massas fossem burras.

[35:55] No contexto de filosofia séria e

[35:57] acadêmica, a única forma de

[35:59] acessibilidade se dá na maior

[36:01] disseminação do acesso à educação

[36:03] formal. Fale-se então de políticas

[36:06] afirmativas, sejam cotas para pessoas

[36:08] baixa renda, para grupos sociais

[36:10] vulneráveis, seja levando educação de

[36:12] qualidade paraa periferia. Se a

[36:13] prioridade na hora de fazer filosofia

[36:15] for somente claridade, então a gente tem

[36:18] que trocar o nome dessa atividade paraa

[36:20] publicidade, porque no fundo a gente só

[36:22] tá pensando em marketing.

[36:24] Enfim, quem enche a boca para falar de

[36:26] claridade em filosofia, de elitismo e

[36:29] essas coisas, das duas uma, ou ela tá

[36:30] querendo te passar o pé, ou ela não sabe

[36:33] o que tá falando. Porque acessibilidade

[36:35] deve ser discutida politicamente

[36:39] enquanto política positiva de integração

[36:41] e permanência. Não deve ser uma

[36:43] exigência filosófica.

[36:46] Sendo assim, é difícil ler Cant? É, seu

[36:49] texto tem bizarr? tem, mas no geral sua

[36:52] escrita é clara como o sol, tão clara

[36:55] que chega a doer. E se por algum motivo

[36:57] surge alguma incompreensão durante a

[36:59] leitura, isso se deve menos por conta do

[37:01] autor, como se ele tivesse escrito

[37:04] difícil de propósito, mas mais por conta

[37:06] de um problema nosso, seja ele temporal,

[37:09] seja ele linguístico, seja ele de falta

[37:12] de familiaridade com vocabulário

[37:14] técnico, com as questões da tradição.

[37:17] Estabelecido isso, qual é o último

[37:19] princípio? Ora, tendo aplicado todos os

[37:22] outros, tendo minimamente entendido o

[37:24] texto, naturalmente algumas questões

[37:26] surgem, sejam elas questões de ordem

[37:30] lógica, questões conceituais, questões

[37:33] factuais.

[37:35] O princípio de caridade diz que sempre

[37:37] que possível, durante a leitura, deve-se

[37:40] reconstruir o argumento do autor em sua

[37:42] versão mais forte. Como assim? Ora, se

[37:46] durante a leitura aparecer alguma coisa

[37:48] estranha, alguma ambiguidade que dê

[37:51] entender duas interpretações, é sempre

[37:54] preferível optar por aquela que não

[37:56] apresente contradições ou aquela no qual

[37:59] menos objeções são possíveis. Por

[38:02] exemplo, muito se criticou Del Guatari

[38:04] por terem supostamente romantizada a

[38:06] esquizofrenia, romantizada a condição do

[38:09] doente clínico. Porém, eles são muito

[38:11] explícitos quanto a isso. Não se trata

[38:14] da esquizofrenia clínica, doente,

[38:17] daquele que sofre com esquizofrenia, mas

[38:20] sim do processo esquizofrênico de

[38:22] desterritorialização

[38:24] e descodificação generalizada dos

[38:26] fluxos. É claro que a esquizofrenia

[38:28] clínica tem a ver com isso, mas ela não

[38:29] é o foco. No momento da interpretação e

[38:32] mesmo no momento da crítica, é sempre

[38:35] importante tentarmos ser o mais honesto

[38:37] possível com o autor. Isso implica uma

[38:41] posição de caridade durante a leitura.

[38:43] Em um certo sentido, o princípio da

[38:45] caridade nos permite não somente melhor

[38:47] acessar a verdade do sistema, como

[38:49] também potencializar boas leituras,

[38:52] potencializar leituras honestas e

[38:55] singulares.

[38:56] Elas são honestas, pois tentam

[38:58] interpretar as palavras do autor com a

[39:00] melhor das intenções, sem tentar fazer

[39:02] jogo sujo, sem tentar imputá-lo posições

[39:05] que ele não tomaria. E elas são

[39:07] singulares, pois no momento da crítica,

[39:10] no confronto da versão mais forte do

[39:12] argumento, surgirão respostas cada vez

[39:16] mais refinadas e inusitadas.

[39:19] Veja, um pensamento que é digno de ser

[39:21] pensado e anunciado nunca é um

[39:23] pensamento fácil. Dito isso, atendo-se

[39:27] aos três princípios aqui apresentados,

[39:29] princípio da verdade, claridade,

[39:31] caridade, podemos dar finalmente

[39:34] procedimento às técnicas de leitura pro

[39:36] estudo de filosofia, que é o assunto

[39:39] principal do vídeo. Sendo o principal

[39:42] objeto da filosofia o texto filosófico,

[39:44] é preciso desenvolver e refinar técnicas

[39:47] que permitam a leitura e interpretação

[39:49] dos textos filosóficos.

[39:51] Sorte nossa, isso já foi feito e

[39:53] formalizado.

[39:55] Em seu livro Leitura e Escrita de Textos

[39:57] Argumentativos, o professor Marcos

[39:59] Sacrini tenta desenvolver um método que

[40:02] já estava implícito na maior parte dos

[40:04] departamentos de filosofia, mas que

[40:05] nunca foi explicitado como um método que

[40:08] pudesse ser exportado e formalmente

[40:10] ensinado.

[40:12] Esse método de leitura é um conjunto de

[40:14] estratégias que permitem adentrar em um

[40:16] nível mais profundo o texto, acessar sua

[40:20] lógica, sua estrutura, sua coerência

[40:23] interna. Quem quiser pegar o livro para

[40:25] ler, eu recomendo muito. O que vai se

[40:27] seguir vai ser uma pequena palinha de

[40:29] algumas estratégias descritas no texto.

[40:32] Uma delas é o fichamento.

[40:34] Quando estudamos, não basta só ler,

[40:37] passar o olho pela linha. Um texto bem

[40:39] lido é um texto marcado, grifado,

[40:42] anotado, mas há diferentes tipos de

[40:44] anotação. Anotação não é só resumir. Só

[40:48] resumindo, ainda estamos na superfície,

[40:50] muita coisa passa batido. Porém, qual

[40:52] que é a diferença entre o fichamento e o

[40:54] resumo? Ora, o resumo é uma exposição

[40:57] sintetizada, uma recapitulação breve. Um

[41:00] certo sentido, né? Preciso pensar para

[41:02] fazer um resumo. O resumo não passa da

[41:05] superfície do texto, ele não

[41:07] interroga-se sobre sua estrutura. O

[41:09] ficha é um passo a mais, pois ele

[41:13] pressupõe uma análise. Eu irei expor

[41:15] três níveis de fichamento aqui, o

[41:17] expresso, o detalhado e o sintético.

[41:21] Esses três níveis de fichamento, vocês

[41:23] vão ver, eles se complementam e

[41:25] apresentam diferentes graus de

[41:27] complexidade. Comecemos pelo Expresso.

[41:31] O fichamento expresso tem como objetivo

[41:33] delimitar o texto em seus blocos

[41:35] temáticos. Como assim?

[41:38] Todo texto tem começo, meio e fim. Disso

[41:41] a gente já sabe. Mas durante o percurso

[41:43] argumentativo, durante a construção do

[41:46] texto, o texto passa por diferentes

[41:48] momentos. Por exemplo, peguemos a

[41:50] introdução à metafísica do Martin

[41:52] Heidegger. No total, o primeiro capítulo

[41:54] tem em torno de 130 parágrafos. O

[41:57] objetivo principal desse primeiro

[41:58] capítulo é tematizar a questão: Porque a

[42:01] ente ao invés do nada. Isso é feito e

[42:04] justificado inicialmente nos primeiros

[42:06] parágrafos, do 1 ao 13. Porém, do 14 ao

[42:10] 17, a gente vai ter uma crítica da

[42:11] filosofia cristã. Do 19 ao 22, ele vai

[42:14] falar da relação entre a filosofia e o

[42:16] tempo. Do 23 ao 37, ele contraargumenta

[42:19] alguns erros ordinários em relação à

[42:21] filosofia e vai definir a filosofia como

[42:24] investigação do extraordinário. Do 38 ao

[42:27] 45, ele vai introduzir a questão da

[42:29] linguagem no desabrochar da filosofia e

[42:31] assim por diante. Vocês conseguiram

[42:33] entender o que eu fiz aqui? Bom,

[42:36] primeiro eu numerei os parágrafos. Essa

[42:38] é uma etapa bem importante. Ela garante

[42:41] que durante a discussão, seja ela online

[42:43] ou presencial, todos estejam a par e

[42:46] consigam localizar com facilidade o

[42:48] trecho comentado e discutido.

[42:51] Depois eu separei os blocos temáticos

[42:53] que compõem esse texto. O que

[42:55] caracteriza um bloco temático? É claro

[42:57] que um texto, um capítulo, uma sessão é

[43:00] constituída por uma certa unidade

[43:02] temática, algo que norteia o texto e que

[43:05] lhe confere sentido. De fato, isso

[43:08] existe, porém, há diferentes momentos. O

[43:11] argumento se desenvolve e em seu

[43:13] desenvolvimento, ele acaba por abordar

[43:15] diferentes coisas. É nessas diferentes

[43:18] coisas que setua os blocos temáticos.

[43:22] Tenta fazer esse exercício na sua

[43:23] próxima leitura, mas não para por aí.

[43:26] Ainda faltam duas etapas, dar um título

[43:28] ao bloco e justificá-lo.

[43:31] Tendo identificado o bloco, é importante

[43:33] ainda nomeá-lo. Isso é importante, pois

[43:36] além de facilitar na hora de voltarmos

[43:37] ao fichamento, dar um nome ao bloco

[43:41] impõe uma coerência ao desenvolvimento

[43:43] do texto. O título, em certo sentido,

[43:46] ele deve mais do que sintetizar, mas

[43:49] capturar o movimento essencial do bloco,

[43:52] sem o qual ele não faria sentido. Ok? Eu

[43:56] dei um título, mas ainda falta

[43:57] justificá-lo. Acompanha a delimitação do

[44:00] bloco temático e do seu título. Um

[44:01] pequeno resumo que ao invés de

[44:03] sintetizar o que tá presente nos

[44:05] parágrafos, justifica o título

[44:07] escolhido. Para justificar é preciso

[44:10] pensar. Não basta apenas resumir, não

[44:12] basta apenas copiar e colar tudo que tá

[44:14] no texto ali. Esse primeiro fichamento

[44:17] tem como objetivo localizar, nomear e

[44:21] justificar os blocos temáticos do texto.

[44:24] Em um sentido, se ele é o primeiro nível

[44:25] de fichamento, é porque sua principal

[44:28] função é servir de uma primeira entrada

[44:30] no texto a título de exploração.

[44:33] Que que ocorre na exploração do terreno?

[44:36] É preciso pensar um texto de filosofia

[44:37] como uma grande paisagem geográfica. Há

[44:40] mudanças no relevo, há desníveis. A

[44:42] paisagem nunca é homogênea, ela sempre

[44:45] apresenta coisas novas. A primeira

[44:47] leitura, nesse sentido, ela vai servir

[44:49] para cartografar, por assim dizer, o

[44:51] relevo do texto, te familiarizar com as

[44:54] diferentes partes e momentos do texto.

[44:58] Olha, aqui tem uma exemplificação

[45:00] histórica, aqui é uma crítica Marx, aqui

[45:03] uma inferência e etc. Esse é o principal

[45:06] objetivo do primeiro fichamento. Vocês

[45:08] vão logo perceber que sendo uma primeira

[45:10] leitura, ainda é possível irmos mais a

[45:13] fundo. O fichamento expresso atende às

[45:15] generalidades da estrutura do texto, mas

[45:18] ainda não capturamos os detalhes. Ora,

[45:21] para isso que serve o próximo

[45:22] fichamento.

[45:23] Bom, se o fechamento expresso tiver como

[45:26] objetivo delimitar os grandes blocos

[45:28] temáticos, por sua vez, o fichamento

[45:31] detalhado tem como objetivo focar nas

[45:33] minúcias, nos detalhes de

[45:35] desenvolvimento desses blocos. Nesse

[45:38] sentido, o fichamento detalhado

[45:39] pressupõe o fichamento expresso. Afinal,

[45:42] trabalhamos em cima desse primeiro

[45:43] registro. Diferente do primeiro

[45:46] fichamento, que tentava localizar os

[45:48] blocos, nomeá-los e justificá-los, agora

[45:51] substitui-se o resumo justificativo pelo

[45:54] detalhamento da função de cada parágrafo

[45:56] individual. Como assim? Cada parágrafo

[45:59] em um texto cumpre uma ou mais função

[46:01] específica. Por exemplo, primeiro

[46:04] parágrafo contextualiza o tema, o

[46:06] segundo problematiza e o terceiro

[46:08] introduz a tese e antecipa críticas,

[46:10] etc. OK? Percebe-se que com esse exemplo

[46:14] que as funções que o parágrafo cumpre

[46:16] podem ser sintetizad através de verbos,

[46:19] atos e locutórios. O autor avalia,

[46:22] critica, examina, julga, expõe,

[46:25] descreve, conceitua.

[46:28] Então, identificada a função do

[46:30] parágrafo e associado ele a um ato

[46:32] locutório, terminamos o fichamento

[46:34] detalhado? Não, ainda falta adicionar um

[46:37] breve resumo que explique em detalhe a

[46:39] função cumprida pelo verbo, de que modo

[46:42] ele exemplifica, de que modo ele

[46:44] desenvolve esse argumento, o que ele

[46:46] introduz, o que ele descreve.

[46:50] Nunca é tarde para lembrar que o

[46:52] fichamento é uma ferramenta. Ela deve

[46:54] ser útil para você. Isso implica que o

[46:56] fichamento nunca deve ser maior que o

[46:59] texto que está se fichando. Quanto mais

[47:02] folhas se gastam para explicar algo,

[47:04] menos poder sintético o fichamento tem e

[47:07] menos valor como uma ferramenta distinta

[47:09] do resumo ele tem. O resumo também é

[47:12] útil, ele tem seus propósitos, mas se a

[47:14] gente tá fazendo fichamento, é na

[47:16] expectativa de alcançarmos uma

[47:18] compreensão mais profunda e sistemática

[47:20] do texto, de evidenciar o modo como suas

[47:23] diferentes partes se compõem. e como

[47:26] elas se relacionam e se desenvolvem.

[47:29] Dito isso, podemos partir pro último

[47:31] fichamento.

[47:33] O fichamento sintético, em certo

[47:34] sentido, pressupõe todos os outros,

[47:37] porque ele, como o próprio nome indica,

[47:40] é o momento da sintetização.

[47:42] Como resumo, não. Fichamento sintético

[47:46] caracteriza-se pela tentativa de

[47:48] responder três perguntas. Um, qual o

[47:50] problema? Dois, qual a tese? E três,

[47:54] qual o percurso? argumentativo do texto.

[47:56] O que significa cada um desses termos?

[47:59] Ora, o problema é o contexto, o pano de

[48:02] fundo, a pergunta que sustenta o texto.

[48:06] Por exemplo, qual a grande questão de

[48:08] Decartes? Como fundamentar as ciências

[48:10] em torno de uma certeza indubtável? Qual

[48:13] a grande questão de Kant na crítica da

[48:15] razão pura? Seria a metafísica uma

[48:18] ciência? E o que seria a tese? A tese é

[48:21] o modo como o autor se posiciona em

[48:23] relação ao problema. Novamente, em

[48:26] Decartes temos o cogeto, em Kant temos o

[48:29] sintético a priori. O percurso

[48:31] argumentativo é o modo como essa tese

[48:33] estabelece e se sustenta. Como já dito,

[48:36] filosofia não é revelação. A verdade se

[48:39] estabelece processualmente, conforme a

[48:41] construção do texto. Isso se dá no

[48:44] encadeamento lógico de argumentos. Sendo

[48:47] assim, o entendimento do sistema

[48:49] pressupõe uma compreensão não somente da

[48:52] conclusão, mas do modo como essa

[48:54] conclusão se sustenta, do percurso

[48:56] percorrido pelo autor para se

[48:58] estabelecer e garantir tal conclusão. Ou

[49:01] seja, não basta saber só o resultado

[49:03] final, é preciso saber como se chegou

[49:05] lá.

[49:07] Nesse sentido, o fichamento sintético é

[49:09] o momento que você põe a mão na massa e

[49:12] produz efetivamente algo que chega perto

[49:15] da coerência de um texto. Isso porque

[49:18] até o momento que produzimos foram

[49:20] fichas com a escrita sendo salpicada

[49:22] aqui e ali no meio da informação, mas no

[49:25] fechamento sintético encaminha-se para

[49:27] algo na estrutura de uma dissertação

[49:29] quase. Talvez seja por isso que ele seja

[49:32] tão bom na hora de leitura de artigos. É

[49:34] claro, existem outros tipos de

[49:36] fichamento. É possível fazer um

[49:38] fichamento de conceitos, de estilo, um

[49:40] fichamento de metáforas. Em meu estudo

[49:43] do Antiedpo, acabei precisando fazer um

[49:45] fechamento de referências. Toda vez que

[49:47] ele citava um autor, eu tentava associar

[49:49] um conceito a ele e explicar sua

[49:52] necessidade em relação ao texto. Em um

[49:55] sentido, o texto exigia isso. É preciso

[49:59] refletir a respeito dessa exigência, por

[50:02] assim dizer, e em certo sentido, cada

[50:05] texto exige uma coisa diferente do

[50:07] leitor. Claro que os fichamentos aqui

[50:09] expostos são úteis, porém nem sempre é

[50:12] possível aplicá-los. Por exemplo, como

[50:14] você produz um fichamento, seja ele

[50:16] expresso, detalhado ou sintético das

[50:19] investigações filosóficas do

[50:21] Vitgeninstein, que é um livro construído

[50:23] em cima de aforismas e que é

[50:25] praticamente uma sequência de mitada que

[50:27] de nenhum modo caminha para uma

[50:28] conclusão coesa, porque o autor em

[50:30] questão não tá tentando defender uma

[50:32] tese, uma doutrina, mas te convencer

[50:35] terapeuticamente da nulidade dos

[50:38] problemas filosóficos de um ponto de

[50:40] vista linguístico.

[50:42] Os modos tradicionais de fichamento não

[50:44] podem se aplicar esse texto da mesma

[50:46] forma como se aplicariam as meditações

[50:48] metafísicas, por exemplo. Sendo assim,

[50:52] como decidir?

[50:54] É por isso que insisto nas múltiplas

[50:55] leituras. Primeiro você lê um livro por

[50:58] cima, se familiarizando com os temas,

[51:00] com a estrutura do texto, com seu

[51:02] desenvolvimento argumentativo. Dito

[51:04] isso, deve se perguntar o quão

[51:06] pertinente isso é pro meu projeto.

[51:09] Dependendo da resposta, isso irá

[51:10] determinar os focos de interesse e

[51:12] atenção na obra, que por sua vez irá

[51:15] determinar o tempo gasto com tais e tais

[51:17] porções de texto. Mas passamos muito

[51:20] rápido sobre uma coisa. Como assim

[51:22] projeto?

[51:24] Ora, conforme o tempo se passa, você vai

[51:27] começar a perceber que o estudo de

[51:28] filosofia exige uma certa postura de

[51:31] autonomia em relação com o objeto de

[51:33] estudo. Se, como definimos

[51:35] anteriormente, não há começo certo para

[51:37] se começar a estudar e isso vai conforme

[51:40] seu desejo e interesse, então temos que

[51:43] em quase todas instâncias aquele que

[51:46] decide sobre o seu estudo só pode ser

[51:47] você mesmo. Sendo assim, de fato,

[51:51] Serempo é um livro importantíssimo pra

[51:53] tradição. Eu tenho curiosidade em ler

[51:55] ele, pois eu me interesso em Heidegger,

[51:58] principalmente na discussão dele sobre a

[51:59] técnica, mas preciso fichá-lo

[52:02] detalhadamente de uma ponta a outra. Se

[52:04] numa primeira tentativa eu ousar fazer

[52:07] isso sem conhecer o texto, sem estar

[52:09] familiarizado com ele, eu corro o risco

[52:11] de não ver a floresta pelas árvores. Ao

[52:13] fixar demais minha atenção nos detalhes,

[52:16] não somente eu vou desgastar meu

[52:17] interesse no autor, como também eu perco

[52:20] a imagem geral, a totalidade que

[52:22] formaria o sistema e que me auxiliaria

[52:24] na interpretação.

[52:26] Nesse sentido, se meu interesse em

[52:28] Heidegger é tal aspecto de sua

[52:30] filosofia, vale realmente a pena gastar

[52:32] tempo em questões preliminares?

[52:34] Essa decisão quem vai tomar ultimamente

[52:37] vai ser você. Quem deve procurar por

[52:40] materiais, averiguá-los, investigá-los,

[52:43] em última instância sempre será você.

[52:46] Mas isso não significa necessariamente

[52:48] que o estudo filosófico vai se dar

[52:50] inteiramente na solidão. Ninguém pode

[52:52] fazer o trabalho do conceito por você.

[52:55] Porém, estar inscrito numa comunidade,

[52:58] participar de ciclos de estudos, onde

[53:00] não somente as pessoas compartilham dos

[53:01] mesmos interesses, como também

[53:03] compartilham de materiais de estudos,

[53:05] dicas, orientações, pode ser não somente

[53:08] legal, como também necessária paraa

[53:10] continuação do estudo em filosofia. Isso

[53:13] porque, como já foi dito, filosofia não

[53:15] é fácil. Para quem tá começando, a

[53:18] leitura repleta de frustrações.

[53:21] A todo momento somos questionados sobre

[53:23] nossa posição e aptidão para tal tarefa.

[53:25] É por isso que está inscrito numa

[53:27] comunidade essencial pro estudo. Ela

[53:30] fixa o interesse e ajuda-nos a insistir

[53:32] naquilo que parece impossível, mas que,

[53:35] dado o devido tempo, o devido estudo,

[53:37] torna-se realizável.

[53:39] Em última análise, a atividade

[53:41] filosófica pode ser individual, mas ela

[53:44] não precisa ser solitária. Não

[53:46] precisamos fazer disso uma necessidade.

[53:49] Enfim, ainda há muita coisa para se

[53:51] tratar. Por exemplo, eu não falei da

[53:53] relação da filosofia com a história da

[53:54] filosofia. Há diferenças, elas são a

[53:57] mesma coisa. A filosofia possui um

[53:59] cânone? Eu não sei. Também percebo que

[54:02] falta discutir questões mais práticas.

[54:04] Qual seria um bom livro de história da

[54:05] filosofia para se ter como leitura de

[54:07] cabeceira? Como distinguir entre bons e

[54:10] maus comentadores? Ou melhor, como

[54:12] distinguo entre aquilo que é lorota pura

[54:14] incheção de linguiça, de um

[54:16] questionamento válido? A filosofia pode

[54:18] ser definida pela busca de verdade, mas

[54:21] para seu estudo não importa tanto.

[54:23] Talvez o que norte o estudo de filosofia

[54:25] seja a busca pelo singular, a busca pelo

[54:27] notável, a busca pela diferença.

[54:31] Filosofar é um esforço crítico de ver a

[54:34] diferença. Talvez questões de

[54:36] reconhecimento não importem tanto no fim

[54:38] das contas. Dito isso, gostaria de

[54:41] terminar o vídeo com duas recomendações,

[54:43] com dois últimos princípios que acredito

[54:46] que sintetizam bem o que foi discutido

[54:48] até aqui e que servem como palavras

[54:50] finais para nortear seus estudos. Um,

[54:54] tire suas próprias conclusões. E dois,

[54:57] não confie muito nelas.

[55:00] O primeiro é importante para evitar

[55:01] preconceitos na leitura e o segundo para

[55:04] não ser um imbecil.
